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sábado, 7 de maio de 2011

troco um mar de esperanças em um amor inventado por uma gota de bom senso.

nada é novo.
a verdade é como um esmalte velho, esquecido na gaveta que já se transmutou em cores e texturas inimagináveis, mesmo assim você reconhece como seu. como um gasto à toa. um desperdício. um: "como eu pude escolher isto?". a diferença é que perder o investimento (material) em um reles esmalte não condiciona seu bem estar noturno, nem sua consciência afetiva. ao menos não pra mim, que nunca me apeguei a essas futilidades.
agora, essas histórias que a gente tece, dia a dia, sorriso a sorriso, compartilhando simpatias, almoços, identificações, sonhos, percepções, noites, toques, estudos, sons, fluidos, saberes, começos, incentivos... essas cumplicidades a que um relacionamento de amor sempre nos impeli...
mas.
eis as adversidades: segredos; manias; histórias de outras promessas que por mais que ignoremos, latejam em pequenos detalhes, como o ressoar de um sino diminuto mas insistente. eis que no insistir de um biscoito discreto, mergulhado em um chá despretensioso, numa tarde de outono, surgem lembranças tão vivas de um passado ido, mas presente como um amor ainda aberto. feridas que nunca saram. lembranças de um tempo perdido. eternidade que não cura.

meia garrafa de vinho me será suficiente para garantir coragem de terminar um namoro? não, né? preciso beber mais, então.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

do Livro do desassossego.




o coração, se pudesse pensar, pararia.

considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. não sei onde me levará, porque não sei nada. poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero. para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.

fernando pessoa

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Outras leituras



Em branco e preto. Foram sonhos tolos, não preciso da voz alheia pra reconhecer. Embora insista em não ouvir nenhuma. Não sei onde foi que perdi meus anés desbotados e meus bordados desfeitos linha por linha... Havia qualquer coisa que antes me deixava respirar ao menos. Pensei ser possível tudo. Vi e quis. Além do aqui? O que não caberia em minhas mãos? O caminho sempre pareceu longo, torto, impossível de acompanhar todo, pq a vida não é planilha de arquiteto insone. Foram-se. Fui.

O sorriso dos lábios é só disfarce, como ouvi, o vento também alardeia cantos, mas na verdade lamenta sua tragédia interior
...



Há sem dúvida quem ame o infinito,
há sem dúvida quem deseje o impossível,
há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,
porque eu desejo impossivelmente o possivel,
porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
ou até se não puder ser.


(Álvaro de Campos, Trecho de "O que há em mim é sobretudo cansaço")