Mostrando postagens com marcador chuvoso e sombrio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador chuvoso e sombrio. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 21 de outubro de 2010





me parece que em tardes chuvosas de primavera como esta, os Corvos saem ao acaso e gritam aos tristes: nunca mais.
me parece que em tardes chuvosas de primavera, não há torta holandesa, ouvidos amigos ou refúgio nos livros que nos sare.
em tardes chuvosas de primavera, todas as águas internas da oxum que há em mim se turvam, perco a cor.
em tardes chuvosas de primavera, tudo que eu não quero é rever seu rosto de sol, sorriso impessoal, sem culpa nem saudade.
tardes chuvosas me arrancam a primavera.
tarde de chuva por dentro.
é tarde.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

retratos





(...) ontem por incrível que pareça todos os lugares que pisei eu te procurei. teus rastros ficaram por lá. o balançar de teus cabelos e esse teu jeito meio atacado de ser. fiquei feliz em poder sentir tua falta, - a falta mostra o quão necessitamos de algo/alguém. é assim o nosso ciclo. eu te preciso. perto, longe, tanto faz. preciso saber que tu está bem, se respira, se comeu ou tomou banho - com o calor que está fazendo neste verão, tome pelo menos uns três ao dia, e pense em mim, estou com calor também. me faz bem pensar nessas atividades corriqueiras, que supostamente você está fazendo. ah, e eu estou te esperando, com meu vestido curto, óculos escuros grandes e meu coração pulsando forte, e te abraçar até sentir o mundo girar apenas para nós. é, eu gosto muito de ti.

caio fernando abreu

quinta-feira, 5 de junho de 2008

do Livro do desassossego.




o coração, se pudesse pensar, pararia.

considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. não sei onde me levará, porque não sei nada. poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero. para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.

fernando pessoa