sábado, 7 de maio de 2011

troco um mar de esperanças em um amor inventado por uma gota de bom senso.

nada é novo.
a verdade é como um esmalte velho, esquecido na gaveta que já se transmutou em cores e texturas inimagináveis, mesmo assim você reconhece como seu. como um gasto à toa. um desperdício. um: "como eu pude escolher isto?". a diferença é que perder o investimento (material) em um reles esmalte não condiciona seu bem estar noturno, nem sua consciência afetiva. ao menos não pra mim, que nunca me apeguei a essas futilidades.
agora, essas histórias que a gente tece, dia a dia, sorriso a sorriso, compartilhando simpatias, almoços, identificações, sonhos, percepções, noites, toques, estudos, sons, fluidos, saberes, começos, incentivos... essas cumplicidades a que um relacionamento de amor sempre nos impeli...
mas.
eis as adversidades: segredos; manias; histórias de outras promessas que por mais que ignoremos, latejam em pequenos detalhes, como o ressoar de um sino diminuto mas insistente. eis que no insistir de um biscoito discreto, mergulhado em um chá despretensioso, numa tarde de outono, surgem lembranças tão vivas de um passado ido, mas presente como um amor ainda aberto. feridas que nunca saram. lembranças de um tempo perdido. eternidade que não cura.

meia garrafa de vinho me será suficiente para garantir coragem de terminar um namoro? não, né? preciso beber mais, então.

domingo, 6 de março de 2011

arlequim

é carnaval. mesmo no coração da folia, epicentro de trios, quartetos e bandos, luzes, máscaras, há quem se refugie. no meu caso, prefiro o esconderijo no castelo de metáforas e lamúrias, sombra passante por janelas entreabertas. ouço ao longe o ecoar dos tumultos: sheherazade enfrentando o sultão, ao vivo, em todas as telas. conflitos, dúvidas, calor, livros, poeira, louça suja, solidão, irmã e irmão chegando. do outro lado, a persistência de uma situação que adultera minha fé em mim, para dizer o mínimo. estudos. escritos. perspectivas. tudo misturado. re-luz. sonos, falas, acordes, escritas, distrações e tantas bobagens... nada, porém, consegue apagar um pensamento nascido por acaso, ontem:


quem faz aniversário em pleno carnaval só podia mesmo ter alma de arlequim.


eis o grande mistério latejante. era para lhe contar mentiras coloridas e risonhas. inventar histórias de felicidades, conquistas, milagres. era para ser bem flutuante, reconciliada, esquecida, até. era para ser qualquer outra que não esta, à sua espera.

sábado, 5 de março de 2011

janeiro



descobri com o caio f. que tem jeitos muito diversos dos meus de se iludir: há quem se engane repetindo para si mesmo que tem um dragão com quem mora; há que se diga todos os dias: que será doce.

claro que eu faço isso também, mas quando chove granizo em pleno sertão, como ontem, apenas me permito dissolver as velhas expectativas numa ladainha seca, escondendo ao máximo a tempestade interna, apesar de violenta e irremediável, escondida como boa parte dos meus projetos vencidos.

voltar à casa onde se perdeu a infância é reconhecer como a invenção de esperanças de que aprenderia a voar e seria feliz podem se tornar duradouras. voltei. mal consigo ver, espalhadas em cacos aleatórios, o reluzir fugaz de recortes de lembranças misturadas, o que foi e o que nunca será agora são inseparáveis: era para ser contínuo e fresco, era para ser boa como a aventura dos meninos perdidos, mas eu apenas voltei ainda com a pele colada com dúvidas e nãos e outros tantos talvezes, essa velha coleção de mágoas além das recentes desarmonias...

os anos girando e eu ainda me debatendo no inóspito desse mar de areia seca granulada e fria como a dúvida em si mesmo, que nos assola em plena madrugada insone, esses desencontros que me congelam pouco a pouco. mar de gelo no sertão.

"na vida, devemos desconfiar: do sultão, do mar, da sorte e do amor; principalmente quando estes sorriem para nós"

e lá vou eu: a perdida, a incerta, a desgastada; cada dia mais ciente de que se os dragões não conhecem o paraíso, eu tampouco.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

sol-azul

começou quando o @caiofabreu me disse:
Vezenquando baixa uma saudade, e fico sentindo falta do teu jeito lento de chegar pisando em nuvens, sempre azul.

então, eu não resisti e fui contar para o vento essa boa verdade sentida aqui dentro, queria que você ouvisse a minha voz pingando essa saudade envelhecida e muito rouca.

e lá fui eu me dissolver lendo/ouvindo drágeas de pensamento ultramoderno de um alheio que já foi meu. (já foi?) #meninoazul

ouvir uma vez só não era suficiente, pq era domingo, vc está tão longe, tão acostumado a minha não presença. eu tive que repetir pra nós dois os seus próprios versos. sua música nos meus ouvidos. um pouco do que me restou de você aqui, esta gravação em que vc desafina, e eu é quem perco o tom.

"às vezes eu só queria precisar dizer q te amo...isso é tão fácil pra mim...assim como dizer que te odeio, tanta coisa em comum" #meninoazul

quanto mais eu sentia saudade de você, mas te odiava.

olha aqui seu #meninoazul mesmo q vc não nos escute, repetimos: "um ser humano jamais atravessa incólume o círculo magnético de outro"


a trágica hora das lamentações e repetições de frases antigas. meu último cântigo assistido por você, relembrado à exaustão.

esta minha mudez revoltada é só para que se lembre da inexistência de penalidades suficientes. não esqueço. #meninoazul

no incomensurável dos desejos e sonhos, entre o aqui e o aí, no reino do sem nome onde nos encontramos, lhe perdôo. #meninoazul

só não espere anistias, benevolências. que o que eu lhe dei foi amor, não salvação. #meninoazul

está perdoado. esta é a minha vingança. #meninoazul



e ao ver seus rastros antigos, tanta coisa que eu nunca soube, avanços, receitas, mesas, toalhas, xícaras, flores de plástico e sonhos cotidianos azuis, tudo combinando com sua alma de sol e com suas anunciadas promessas de vida comum, longe de mim, sem mim, tudo parecendo já gasto pela rotina mas que me era tão novo quanto essa falta que você faz repentinamente agora,

confessei:

1. sei que você jamais ouvirá nenhuma dessas minhas abreviações de amor irreal. não faz diferença mesmo, todos os ventos sabem que não quero você. não volte. jamais pensei algo assim. é apenas sombra de saudade esparramada por incontidas lembranças outras. foram dias bons, vc também há de convir, se algum acaso milagroso lhe permitir me olhar nos olhos.

2. havia perdido a lembrança dessa sua infinita capacidade de rir azul.

3. se você me olhar nos olhos e sorrir, eu te amo de novo.


então, que fazer se não voltar à estação do esquecimento?


nota mental: não colecionar prolongamentos de situações que declaradamente rimem apenas com possibilidade intransitável. #meninoazul

nota mental: não perseguir sonhos de eternidade com alguém que pretende plantar sua felicidade em outro asteróide. #meninoazul

nota mental: desistir de juntar partículas de esperanças abandonadas por gente q mesmo indo embora ñ apaga seu rastro de poesia #meninoazul

nota mental: ignorar o florir das promessas dos cometas #meninoazul

nota mental: não esquecer que o incentivo a ouvir e rir para as estrelas sempre vem de um pequeno principe suicida. #meninoazul

nota mental: evitar a tentação dos filhos do sol garante bem mais do que a saúde da pele. #meninoazul

nota mental: gente que sorri azul deixa sempre um rastro excessivo e íntimo, não importa o quanto você finja ignorar. #meninoazul

nota mental: não há tempo que suprima a ausência de um #meninoazul





pra não esquecer jamais:












nota mental: não há tempo que suprima a ausência de um #meninoazul

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

mesóclise

eu gosto da mágica dos pronomes possessivos
suas flexões de desejos corrigem os limites de todas as palavras,
criam cercas, porteiras e cadeados
com eles, nos perdermos nesse pomar de sonhos
minha sombra
meus versos
meu amor

eu gosto da sedução desvairada dos pronomes possessivos
nossa história
nosso ritmo
nossa doce ilusão de completude

teu gênio
tua cor
tua festa dionisíaca
minha boca na tua
nessa ilusão de sermos um só
o meu e o teu

eu gosto do desatino dos pronomes possessivos
dessa coleção de expectativas, dessas marcas na pele,
dessas linhas e linhas e linhas
que me fazem crer
naquilo que eu mesma inventei

terça-feira, 2 de novembro de 2010

é bom que seja assim, Dionisio, que não venhas...




quando chegaste do reino do improvável, qual os antigos conquistadores, magnos e ardentes, me abraçaste, beijaste e disseste: vem comigo; eu fui.

desde então, o teu comportamento de eternidade criou aqui esta aura de permanência dos teus cantos e toques. na tua boca vi conter todo o reluz daquelas estrelas que nos sorriem e eu, simples adoradora rendida, larguei meu cetro do reino do desdém e passei a mendigar um pouco desse ar que o teu corpo produz, quando te ergues e passa, desmontando dúvidas, soerguendo ilusões em espirais que eu já não sonharia. eu fui contigo, de mãos dadas, abandonando pelo caminho a minha coleção de desencantos, segredos e promessas vencidas. Ariana, Ester, Aurélia Camargo todas as minhas faces a ti suplicantes.

teus sons e cheiros de feitiço perpétuo, tuas mãos onde depositei minhas galáxias de esperanças de renovação, teus ombros, teu corpo, tua sombra, vestígios do teu poder, o eco de tudo isso, agora, me grita através dessa casa onde já não estás, um palácio feito o pasto seco da caatinga, desolado, onde dormem meus versos desesperados totalmente inúteis, como os colares, vestidos e flores que vez ou outra ainda teimam em me ofertar, mas que desprezo. desses desencontros contínuos onde a vida insiste em nos moldar, dessas falhas nos rumos do que julgamos ser nosso, dessa grande tolice que é a emoção humana.

e fica essa mistura de ungüentos, lágrimas e cantos que jamais suporias, tantas outras de mim, espalhadas, sangrando, à tua espera.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010





me parece que em tardes chuvosas de primavera como esta, os Corvos saem ao acaso e gritam aos tristes: nunca mais.
me parece que em tardes chuvosas de primavera, não há torta holandesa, ouvidos amigos ou refúgio nos livros que nos sare.
em tardes chuvosas de primavera, todas as águas internas da oxum que há em mim se turvam, perco a cor.
em tardes chuvosas de primavera, tudo que eu não quero é rever seu rosto de sol, sorriso impessoal, sem culpa nem saudade.
tardes chuvosas me arrancam a primavera.
tarde de chuva por dentro.
é tarde.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

retratos





(...) ontem por incrível que pareça todos os lugares que pisei eu te procurei. teus rastros ficaram por lá. o balançar de teus cabelos e esse teu jeito meio atacado de ser. fiquei feliz em poder sentir tua falta, - a falta mostra o quão necessitamos de algo/alguém. é assim o nosso ciclo. eu te preciso. perto, longe, tanto faz. preciso saber que tu está bem, se respira, se comeu ou tomou banho - com o calor que está fazendo neste verão, tome pelo menos uns três ao dia, e pense em mim, estou com calor também. me faz bem pensar nessas atividades corriqueiras, que supostamente você está fazendo. ah, e eu estou te esperando, com meu vestido curto, óculos escuros grandes e meu coração pulsando forte, e te abraçar até sentir o mundo girar apenas para nós. é, eu gosto muito de ti.

caio fernando abreu

domingo, 30 de maio de 2010

outros espaços


a saudade mistura tudo. a saudade não conhece o tempo. não se sabe o que é antes nem depois. tudo é presente. #coisasqsinto #rubemalves

sábado, 20 de fevereiro de 2010

sol-azul: aniversário como tempo de desabafo e perdão.

outros títulos possíveis:

depois de 3 estações, um scrap.


ou:
pq isso aqui não deixará de ser um acúmulo de versos espalhados, em pedacinhos aleatórios...


ou:
de quando eu plantava girassóis.


ou:
tudo depende do humor do Sol².


ou:

7/10/2009 21:52:59


está perdoado. lhe entreguei uma misericórdia apressada, corrompida, como diria o n. rodrigues, seu companheiro de anunciação de afetos múltiplos, espalháveis. daí que a sua ofensa maior, o seu grande erro, esse de existir longe de mim, apesar da órbita e das rimas, sobrepõe-se aos momentos nuviosos, às bolas fora, e não permite que o esquecimento alce vôo. pesa. e este meu silêncio morno, que picharia a cidade inteira com recriminações a seus atos levianos, embora preferisse lhe dedicar as tais flores amarelas, se não entendesse a excepcionalidade conceitual do caso, se não acreditasse, à revelia da minha fé em escombros, que há a promessa, esta minha mudez revoltada é só para que se lembre da inexistência de penalidades suficientes. não esqueço. e no incomensurável dos desejos e sonhos, entre o aqui e o aí, no reino do sem nome onde nos encontramos, lhe perdôo. só não espere anistias, benevolências. que o que eu lhe dei foi amor, não salvação.

está perdoado. esta é a minha vingança.




as estrelas são belas por causa de uma flor que não se vê - saint-exupéry






7/10/2009 21:52:59
está perdoado. esta é a minha vingança.

Que bom! Pensei ter morrido, pra ti...

por você, eu encherei a soterópolis inteira de girassóis, no verão.

Oh meu Deus...
Senhor, obrigado!

vc verá, nem q seja por fotos.

Antes, diga-me: como passou esse tempo todo de silêncio?

já disse: minha mudez revoltada é só para que se lembre da inexistência de penalidades suficientes. não esqueço.

Estou bem habituado a penalidades... o tempo todo sofro alguma delas!
mas eu queria saber se vc está bem...

estou.
e vc?


Bonzinho... aliás, nem tanto, pela tua mudez...
Mas agora estou melhor.

mudez q não deixou de ser carinhosa, pq te mandei versos azuis
só hoje vi q estão lá, no orkut
gostei.


Eu os li... fiquei com receio de responder, mas gostei muito...
Fiquei feliz.
Entrei bem aos 30.

agora vc é, irrevogavelmente, um adulto.

Tomara.

como é?

Alguns alunos perguntaram...
Pensei um pouco... e respondi que não é diferente de completar 15 anos.
Mas, desta vez, vc se sente mais encorpado, menos fútil e com cabelos brancos a mais.

eu pensava q só era significativo pras meninas os 15 anos
os 30 são anúncio da decreptude. ainda me restam uns 3 anos de suspiros, até lá

Alguns rapazes acham importante os 15 invernos. Porque é uma idade de cabeçadas e desejos sexuais irrealizáveis.

eu gosta da inversão da previsibilidade metafórica q vc faz. mas quem nasceu em julho, e é da noite, sou eu. vc, nascido na primavera, solar, comemorando invernos? boreal sou eu.
acho q os homens vivem eternamente Às cabeçadas. 15. 30, 40... ha diferença?

Sei que sou da estação das plantas... mas é que boa parte da minha vida foi um inverno...
Bem, aí já não posso confirmar. É raro eu dar tropeços, atualmente. Não sou perfeito, mas agora faço cautela.

... pareceu uma história q contava para os meus: uma estrelinha q tinha medo do escuro. medrosa, se escondia. até q descobriu q, brilhando, a escuridão apagava.
mas tudo bem... eu deixo! afinal, tb apreendi algumas de suas pretensões metafísicas, e as espalho por aí, como se minhas fossem


Acredite, eu queria te dar bem mais afeto que valesse... plantando um baita girassol na tua vida.

já floreceu

sábado, 10 de outubro de 2009

ganhei




FEMININA


nascerá, então, do teu breve sentar,

o sorriso que carregará a diferente beleza de quem te olha.

quem te vê sorri mais bonito.

e não é pelo teu reflexo...

é pelo infinito que se abre aos olhos que deslindam teus mistérios.

desde o formar do decote que junta e eleva os seios, até o meio de retinas.

tudo se faz especial (muito mais que beleza)

tudo se faz transcendental (muito além da pureza ou simples magia).

teu sentar, teu luzir, teu ser o que é,

te faz diferente, te faz sobressair.


te faz uma mulher dentro de outra mulher.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

somos todos desertos, e eu tenho sede.





tudo quanto penso,
tudo quanto sou
é um deserto imenso
onde nem eu estou.

extensão parada
sem nada a estar ali,
areia peneirada
vou dar-lhe a ferroada
da vida que vivi.

[...]

fernando pessoa, 18-3-1935







nós somos desertos, mas povoados de tribos, de faunas e floras. passamos nosso tempo a arrumar essas tribos, a dispô-las de outro modo, a eliminar algumas delas, a fazer prosperar outras. e todos estes povoados, todas essas multidões não impedem o deserto, que a nossa própria ascese; ao contrário, elas o habitam, passam por ele, sobre ele ( o deserto a experimentação sobre si mesmo é nossa única identidade, nossa única chance para todas as combinações que nos habitam (...) DELEUZE

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

conversas internas



eu andei perdida em movimentos aleatórios de felicidade. é simples qd não se é só. mas isso, para mim, dura pouco. acaba antes do fim das férias. e por + q eu me esforce, esvae-se, fumaça entre os dedos.
[o amor também será isso, então? uma despedida sempre pronta a cumprir-se? essa ameaça constante?]
o q, nesta vida, afinal nos une ao alheio do mundo e dos outros se não a nossa consciência de sozinhez e desepero? não é o sangue aqui nas veias. nem é a bondade, ou qqr outro valor. seria simplório d+. é o comodismo? a preguiça? acredito + nisso do q em qqr juízo moral.



mas isso é tão lá dentro q quase não ouço. não tenho do q reclamar. e não é crítica a ninguém. lá em casa, além das nossas caras quase idênticas, o cilma é de reciprocidade em atos de solidariedade pura e despretenciosa. riso e cor. uma felicidade q não tenho enquanto atravesso esse cotidiano na capitá do arraiá baianesco. lá em casa, tudo é tão engraçado e calmo...


[presentinho da amiga super-patie:]

/acadêmicos s.a by: patie braille/



depois que eu cheguei à caótica e destrambelhada capitá, quase não me vejo. acho q me esqueci em alguma gaveta velha, ou pote sem uso. quem sabe qd me reencontrarei?
era pra ser + forte e puro o meu senso de identidade e reconhecimento das minhas próprias querências. talvez eu tenha me tornado só isto. e sigo.

não vou negar: é bom. eu gosto. é ótimo! se tenho medo do porvir, é por causa do já ido. ninguém entende, pq é um daqueles tantos segredos q eu fiz questão de apagar até do caderno imaterial do vivido. aí deu nisso. insistência louca em capítulos repetidos de série tosca, sem qqr audiência. minha cabeça e seus dilemas: eu quero mesmo um de tamarindo, que parece de groselha e tem gosto de limão ou só uma água sem gás?

coragem, coragem...






a pálida luz da manhã de inverno,

o cais e a razão
não dão mais 'sperança,
nem menos 'sperança sequer,

no meu coração.
o que tem que ser

será, quer eu queira que seja ou que não.

no rumor do cais, no bulício do rio,

na rua a acordar
não há mais sossego,
nem menos sossego sequer,

para o meu 'sperar.

o que tem que não ser
algures será, se o pensei;
tudo mais é sonhar.


fernando pessoa
28.12.1928

sábado, 18 de julho de 2009

27 inernos

[espaço para viver o dia, fotografá-lo, e reproduzi-lo sem versos ]


nunca vou me render




De: Adriany Thatcher
Enviada: sábado, 18 de julho de 2009 5:12:10
Para: poeta h

madrugada de um dia que se perdeu inteiro para minhas angustias terem insônia; acharem morada; brincarem de subverterem meu juízo ralo.
mesmo assim eu lembro de você, dos versos espalhados em outras manhãs mais chuvosas, da lira e do mistério.
faz falta.

a menina que fui e que brincava em jardins floridos e úmidos, sorriso fácil, sonhos puros, essa menina te dá as mãos agora, andemos juntos [assim sonho] e brindemos a nossa malfadada vida. contigo, os segredos fazem sentido: "o 18 de julho é quase um tudo na medição das independências interiores."

espero que faça sol de manhã. e por dentro também.

[...]

a você: toda a melodia do mundo.
parabéns.

muitos beijos.
_________*__________*___________*______________*___________

18 de julho

sim: 27 invernos.

não tenho lá festividades para contar. números ímpares refletem imperfeição. mas também não tenho o que reclamar: estou em paz, apesar do plim plim da varinha de condão faltante.

pensei e quis sol. mas fiquei em casa. ouvi recados on line. telefonemas? só um, vindo do outro lado do atlântico [esta constância sempre me surpreende e alegra].

sem choro ou saudade. até dormi. mas na preparação para a travessia, choveu. fiquei tão triste, me senti tão só... eu mal lembrava como era este clima do outro lado da cidade, no sentido da saída [que já representou a chegada, quando eu ria ao sol inebriada de amor e felicidade, mas naquela época era verão, e eu pensava, sonhando, que era amada], não queria ficar pensando nisso, foi a chuva que me trouxe essas lembranças...

em casa. espero equilibrar os ânimos, insistir no sonhos. voltar melhor. 27 anos, quem diria? e essa luta desregrada, esse desequilíbrio todo...

[eu tentei, mas não consegui evitar o pensamento preso nessas lembranças, foi a noite chuvosa, esses lados da cidade me obrigam a sentir isso.... casinhas iluminadas, feias, feias!]

em casa, depois de um mês de férias do comum: aceitei o bombom recheado que a vida me deu de presente – tão doce, tão suculento que comi rápido. uma tensão boa. constante. breve.

todos estes sentimentos misturados. esta espera por não sei o que, nem quem... tem sentido? há sentido? o que sou, nisto tudo? sou? aprendi com a dor. tive sonhos maiores do que eu. se me perdi, se não alcanço, a estrada é longa, e eu estou descalça...

nada vale o preço deste bem estar interno, apesar de tudo, este pacífico modo de sentir a vida.

sinceramente, não tenho nada a reclamar. agradeço.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

[parêntese explicativo]

[choveu mais cedo. eu nem tinha percebido, mas bastou colocar a cara na rua para sentir a baforada fria da saudade de um nós dois já tão antigo que até eu quase não lembrava.
só entende quem já encontou alguém com quem se quisesse, eternamente, dormir com as mãos enlaçadas.
é por isso que não há nada a ser dito ou feito capaz esconder este deserto úmido e invisível que permanece no meu coração. invisível para os outros. ninguém consegue me fazer esquercer de vê-lo luminoso e frio.
chovia na manhã em que eu me escondia entre livros, telas, ingredientes de outras lembranças. atrasos e queixas desse ritmo tordo da minha vida morna. uma ata. tudo igualmente embolado e sem ritmo. se eu pudesse, permaneceria cá dentro, escondida, sem voz, sem motivos para experimentar o vento do lá fora. isso a que chamam mundo civilizado tem graça? nem.
destranquei cadeados e portões. embora fosse a brisa a grande semeadora de discóridas e lutos, essas andanças teimosas que empreendo por vias cada vez mais tomadas de gente na contra mão de mim, guarda-chuvas e carros irritando-me os passos mais simples, eu ainda somei duas ou três lembranças tardias de uma decepção já morta. mesmo daqui quinze anos elas ainda me acompanharão. sou tão previsível e tola.

ruas sujas. gentes. gentes. mais gentes. barulhos. água. eu seguindo, sempre atrasada, sempre perdida. quem nota a tristeza profunda nos meus olhos? quem conhece essas narrativas sem nexo que me atormentam o sono mesmo após tantos meses de ausência física e de anulação dos votos eternos de amor? [sim, hoje eu sonhei com o sorriso e o abraço branco de um amor que nunca tive, mas que me mentiu muitíssimo bem]. nem eu lembrava. por alguns poucos instantes, destes segundos que a gente para de respirar por qualquer bobagem, eu esqueci o meu deserto. instantes raros. distração. o deserto continuava lá. ele é forte. e muito árido.]

domingo, 5 de julho de 2009

a estação do inverno


_coitado! vive tão sozinho, não tem nada no mundo...

enganava-se a rosa-chá quando pensava que o gato malhado vivia solitário e não tinha nada no mundo. bem ao contrário, ele tinha um mundo e recordações, de doces momentos vividos, de lembranças alegres. não vou dizer que fosse feliz e não sofresse. sofria, mas ainda não estava desesperado, ainda se alimentava do que ela lhe havia dado antes. triste no entanto, porque a felicidade não pode se alimentar apenas das recordações do passado, necessita também dos sonhos do futuro...

jorge amado - o gato malhado e a andorinha sinhá




no espaço de um quase, cabem tantas conversas. olha nós dois: o quase é a ilusão da proximidade mas o longínquo, essa demência, ressoa melhor.

quando eu chego em lágrims tensas e ninguém me diz que eu preciso florir, quase é o espaço entre as ocupações, entre a lágrima e a sombra. o quase não tem ritmo, nem rima, só cor de talvez inacabado.

o quase enche o vazio com irmãozinhos barulhentos. o quase é fio da madrugada sem lua balançando sonhos, quase não é tristeza embora o quase me faça chorar. mas a saudade também faz. e o não ter rumos, isso não é nada bom.nem quase.

o quase é uma prisão.



tanta coisa que eu não sabia. nunca tinham me falado, por exemplo, deste sol duro das três horas. também não me tinham avisado sobre este ritmo tão seco de viver, desta martelada de poeira. que doeria, tinham-me vagamente avisado. mas o que vem para a minha esperança do horizonte, ao chegar perto se revela abrindo asas de águia sobre mim, isso eu não sabia. não sabia o que é ser sombreada por grandes asas abertas ameaçadoras, um agudo bico de águia inclinado sobre mim e rindo. e quando nos álbuns de adolescente eu respondia com orgulho que não acreditava no amor, era então que eu mais amava; isso eu tive que saber sozinha. também não sabia no que dá mentir. comecei a mentir por precaução, e ninguém me avisou do perigo de ser tao precavida; porque depois nunca mais a mentira descolou de mim. e tanto menti que comecei a mentir até a minha própria mentira. e isso - já atordoada eu sentia - isso era dizer a verdade. até que decaí tanto que a mentira eu a dizia crua, simples, curta: eu dizia a verdade bruta.

clarice lispector - aprendendo a viver

quinta-feira, 2 de julho de 2009

[só tento tempo pra um suspiro]

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Arte de Amar, Manoel Bandeira

sábado, 27 de junho de 2009

Eu sei que você sabe Que eu sei que você sabe Que é difícil de dizer...



"Tomas não sabia então que as metáforas são uma coisa perigosa.
Não se brinca com as metáforas.
O amor pode nascer de uma simples metáfora"
milan kudera - a insustentável leveza do ser



não!
sim.
não.
talvez.
não sei mais.
tem q saber, é? tá tudo mt doido aqui: versos, fotos, gestos, sons, expectativas... e esse cheiro! não consigo dormir com esse cheiro me lembrando o florir inesperado. o gosto também.
é que eu quero tudo limpo, qboalogicamente limpo. aí veio a manhã, o sofá, as dúvidas, o repentino. eu não dormir uma noite inteira fazendo nada além de olhar ? eu tava esperando? nem sei onde guardei aquele estojinho delicado com meus sentimentos de amor puro, inocência, e crença na mágica simples dos encontros metafóricos.
a clarah tem mesmo razão: sorrisos fodem.
encantamento também.

eu não vou a lugar algum, marinheiro só. eu não sou daqui. então pare com essa história de florescer antes de ter raízes. me deixe com meus versos sem rima, com minhas pétalas sem cor [por isso preciso tanto me rodear dessas compradas no museu inventado de meus próprios sentimentos esquecidos].
só vou para dizer: adeus.
e viver arrastanto mágoas.
e sonhar com as chances de encontros que o vento não conseguiu polinizar.
é isso ou outra manhã de grandes amores eternos com duração minúscula.
tô cansada.

o ministério da saúde se diverte:
metáforas e rimas podem causar vida em abundância.
ao persistirem os sintomas..., ah... se entregue!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

outono




no outono eu fico mais melancólica e triste do que a minha habitual tristeza sem motivo me acostumou.

os dias ficam amarelados, opacos e vagarosos. tudo está meio morno, menos o sol e seu ardor por si mesmo, esse assanhado. a cidade anda vazia. salvador só funciona até as 23h [alguém pode me dizer por quê?] e todo mundo parece estar gripado, ou ocupado demais com coisas deveras secretas para se manter invisivelmente além dos meus olhos. nem é feriado ainda, mas tudo já fechou. inclusive o dia.

chás de frutas com hortelã. não bastassem os espirros e a coriza, eu tenho cólica. ser mulher é sempre um incômodo previsível e múltiplo.

eu não deixo




eu viajei para a praia do forte, vi as tartaruguinhas e o mar. a igreja. o forte. fotos e cascos. tudo doce. era outono também. choveu antes e depois. eu estava feliz.

as tartarugas vivem muitos anos. centenas. bem mais do que nós, os infames. e elas gastam essa pseudo-dádiva [as tartarugas não são seres alegres] viajando. enormes, tristes, cansadas cruzam o planeta a procura de um não sei quê que justifique tantas décadas, séculos até, como testemunhas oculares do sem-sentido que é a vida, elas viajam. nada as oprime. nem as crias, nem a distância. atravessam o mundo, através dos oceanos, até que algum idiota que queira um pente, um brinco ou sopa quentinha as agarre. ou que alguém preocupado com a extinção delas as pesque, alimente, cuide e recoloque no mar. no meio deste processo eu a vi, linda e triste. ela gritava, cabeça para fora do tanque, nadadeiras esforladas [nem sempre o corpo obedece o coração] ela se virava na direção do mar, e insistia. acho que chorava.

uma vez, faz tempo, uma tartaruga também cantou pra mim. apareceu de repente linda, doce e triste. com aquele olhar tênue que diz: sou só. cuida de mim?

acreditei: quis. deixei. foi um nado tranquilo. o oceano todo para mim era um lago agradável. mas as tartarugas não gostam do chão, não constroem casas. eu olhei ao redor e ela já não estava. foi-se sem avisar. e me afoguei.

tartarugas querem conter todo os oceanos dentro de si. a inmensidão lhes é pouco. vão. porém, sempre retornam.

eu que não quero mais nadar.

e prefiro a sozinhez da praia, ao sol.

sábado, 21 de março de 2009

sexta feira analítica [ou de sobre o fim do verão]







[a canção que não se ouvia, mas que eu imaginava ainda me era desconhecia]

Bem que você podia
Pintar na sala
Da minha tarde vazia
Como na poesia

Itamar Assumpção

compartilhamento de tristezas [ ou da condição soberana da inequívoca sensação de ser só].



Adriany diz:
[sobre a tua necessidade de sozinhez hoje, querido, eu ouço e compreendo os teus motivos. me disponho ao seu lado, na permanência etérea de um bem querer simples e mudo: estou contigo.]
Adriany diz:
"Quando às vezes o mar soluça tristemente
A praia abre-lhe os braços e deixa-o a gemer;
Embala-o com amor, de leve, docemente,
E canta-lhe cantigas pra adormecer!"



Se eu pudesse amar-te agora
não repetiria gestos nem palavras
só meus olhos a implorar os teus
o desejo de não ires mais embora

pudesse eu amar-te agora
e te fazer sorrir cada vez mais
seria eu teu mar, o teu veleiro
a aportar em mim, teu templo, o cais

e envolta em meus braços, teu abrigo
eu, por amar-te tanto, te diria
da memória etérea desse amor antigo

transformaria em rima as lembranças
e reescreveria em cores nossa história
ah!... pudesse eu amar-te agora!...

[Alice Daniel]

terça-feira, 10 de março de 2009

tentativa de ordenação [cíntia, persito, adriany]


[em amaralina, num pós tarde sob o sol, ao mar]

[um cineclubinho, entre amigos indispensavelmente interessantes, geniais, e fofos.]

sábado, 28 de fevereiro de 2009

apresentação tardia



sou do lado de cá
um pássaro
um sopro
um tom
mas só no avesso
[do jeito escondido]

....................do outro lado
....................essa chatice
....................tímida
....................tênue
....................imprecisa
....................tentando se encontrar




eu sou uma noite calma e escura repleta de estralas que disfarçam a solidão. já me disseram que a noite, essa apavorada, desespera-se por pouco, acende as estrelas para não se reconhecer só, envolta no vazio.

sou caseira, falante, solidária. e dizem: típica canceriana. pena não se fazer castelos como antigamente.

coleciono pedras – mas só aquelas que me contam segredos.

fiz galinha-gorda da maioria dos meus sonhos. os que sobraram [poucos] me perseguem, à noite, me obrigam a escrever impressões irreais, desejos confusos e lembranças inventadas.

às vezes, não acredito em mais nada. aí o meu coração percorre outros caminhos, à espera de fragmentos imateriais de beleza e amor, como se possível fosse, colhendo certos olhares cruzados, certas cores de expressões inesperadas. raros momentos nos quais me animo a gritar para a lua, braços erguidos como os de uma sacerdotisa herege, em oferecimento e entrega.

mordo a vida vagarosamente. não sei ainda do que tenho medo. espero muito. calo-me quase sempre. nem tudo o que a gente pensa, vale a pena dizer.

com minha coleção de mágoas, tento aprender a respeitar os outros. [ah, esses desencontros!]. ouço e aceito. sou pacífica. apesar de bem armada. o meu atrevimento é esnobe e preguiçoso. ignoro, evito, desconheço o que me contraria. enfrentar? gastar energia discutindo? ando cansada demais...

o que mais faço é tentar me entender. um dia, quem sabe, encontre algum benefício e/ou avanço nessa batalha.

sou lenta, triste e descrente. mas disfarço bem.

amo demais, intensa como a lua cheia no verão.

sou sincera e múltipla. colorida e sombria.

sou tantas que freqüentemente me confundo e só me acho nesses rascunhos aleatórios que espalho por onde passo [enquanto persigo o abstrato].

Fragmentos de um [des]amor



[ANTERIORIDADES]

Cerro um pouco os olhos onde subsiste
Um romântico apelo vago e mudo
_Um grande amor é sempre grave e triste.


Julho

sobre esta noite:


tanta angústia fresca guardada com acúmulos de esperanças, palavras mergulhadas em ressentimentos tardios e dores mudas. meus dias atravessados às cegas, barco perdido na tempestade inesperada que desafiou a noite de sonhos lindos, lindos. vento e água. desatino. tudo perdido. promessas e lágrimas vão perdendo suas cores. quanta dor consigo suportar em nome desse amor disforme? é amor ou teimosia? ao menos, quando a raiva toma o lugar da dor, alivia.


Sobre um fim de semana de ausências:

o meu corpo esteve nu e livre. andei-comi-vi-falei-ri-dei-pedi-ouvi-estudei-fiquei-doente e quis chorar. dias arrastando esse corpo em lugares em que eu mesma não estava. o meu desejo teima em fugir disto que tenho e perco tudo.

a maior aflição nem sei se é a impossibilidade de banhar-me novamente na calmaria do saber-se amada, enquanto se ama, incondicionalmente. solo arrasado. fontes secas. desolação. cal por sobre meus pés, e nos meus cabelos.

dói também a tortura dessa dúvida insistente: e se for a nossa última chance? [nossa?] e se o jogo mudar agora? ah... eu queria tudo como era antes... a velha e boa paz de esperar o possível...

será o meu pecado assim tão sujo? não merecerei a benevolente chance de ao menos um acerto? uma casinha amarela, jardim florido, um amor, uma criança rindo. to começando achar que a felicidade é demais para mim, e que me converti novamente.

sempre fui só. quis mudar isso tantas vezes. desta eu pensei ter conseguido, enfim. foi sonho e acordei para o pesadelo inconstante e solitário que são meus dias medíocres. nem filosofia nem esperanças. nada me fará rir como quando eu contava com o amor ingênuo... foram-se o verão e a minha paz. tudo está gelado e doentio. tenho febre, dores, espirros infinitos, catarro no coração.

[...]

a minha cabeça fútil se enredou em esperanças infantis. quis o retorno, o arrependimento, o perdão, o final feliz dos contos de fadas e das novelas de quinta. sou mesmo uma vergonhosa falcatrua, uma cópia, um simulacro, tão sensata e pura eu me apresento, mentira! sou doida e fraca. quero o simples. mas aceito qualquer arremedo de felicidade que me derem. sou fácil e tola. mas acho que sou especial e firme, por isso falo tantas bobagens vãs. tremo de esperanças apenas qo toque tardio de palavras que sei não passarem de fumaça de candeeiro: de manhã não resta nem a lembrança do cheiro dela. tudo podia ser diferente. eu queria tanto, com amor e sinceridade puras. ilusão de criança.

cansei de ser essa que chora e espera. para que tanto amor e respeito se sou esquecida, despresada?

[...]
perdas e dores e medos cada vez maiores...

joguei fora meu tempo e minha energia fantasiando uma vida comum e doce. tinha sol claro no meu caminho inventado. era dia mesmo nas noites: a lua alta no céu, sob a água eu ria, em meio às gentes dançava, em casa suspirava, amava entre arrepios. tudo perdido. deixado. peças vencidas no jogo em que não percebi estar como coadjuvante.

agora? resignação. um pouco de mágoa também. no labirinto de sonhos que ergui eu mesma fiquei presa. amarrada pelas expectativas da minha mente. devaneios de criança: as borboletas no quintal me fascinavam. quis ter um casulo só meu, dormir de gorda, sonhar tudo lindo, ser esperada pelo mundo inteiro, acordar viva, abrir meus próprios rumos coloridos, erguer as asas encarnadas, beijar o doce das flores, todos os jardins se ofereceriam apaixonados por mim, acompanhar todos os ventos do mundo, experimentar tudo, me lambuzar de sol, alcançar os astros!

mas sou apenas uma lagarta monótona e resmungona pastando o amargo dos dias de uma vida rasteira e monocromática.

[...]

uma caneca de chá morno sobre a cama. palavras sem sentido que não tenho coragem de pensar mas que me atormentam mesmo assim. Uma madrugada que se anuncia longa e solitária. Gripe forte. Sms doentios, saudades de casa, de mim quando criança, de meus sonhos puros, de ter crença que eu mesma podia mudar tudo, quando quisesse...

não entendo o enredo da minha vida. quero outro. só que não sei qual.






tudo depende do humor do Sol.

eu só queria que cessasse esse mal invisível

que me condena a ser só

estou cansada deste marasmo de lamentações inoportunas

e também dos falsos arrependimentos tardios

tenho sono profundo:
a eternidade distraindo-me em sonhos

o que mais eu poderia querer?

não há aqui qualquer chance melhor de redenção.

o descanso eterno, eis o único futuro que me aguarda

bela tem razão

só a morte pode esculpir este palácio

de glórias, de amor, de quimeras

em que eu tenho desejado viver

sono profundo, desistência infinita, cansaço máximo

no fim, o vento leva as palavras boas e más

depois leva também a lembrança apagada delas

a mesma brisa que refresca,

pode igualmente ferir o rosto


tudo depende do humor do sol.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

quarta feira de cinzas




2009

A POSTERIDADE NOS JULGARÁ

Quando for descoberto o remédio preventivo contra a gripe, as gerações futuras nunca mais poderão nos entender. Gripe é uma das tristezas orgânicas mais irrecuperáveis, enquanto dura. Ter gripe é ficar sabendo de muitas coisas que, se não fossem sabidas, nunca precisariam ter sido sabidas. É a experiência da catástrofe inútil, de uma catástrofe sem tragédia. É um lamento covarde que só o outro gripado compreende. Como poderão os futuros homens entender que ter gripe era uma condição humana? Somos seres gripados, futuramente sujeitos a um julgamento severo ou irônico.

Clarice Lispector - Aprendendo a viver.



[ANTERIORIDADES]



O mar, o vasto mar nos consola os labores!
Que demônio dotou o mar, roufenho canto
Perene a acompanhar os ventos rugidores,
Da sublime função de sublime acalanto?
O mar, o vasto mar nos consola os labores!

Baudelaire





arrebentam-se nas pedras negras da minha dor os desejos contraditórios de que me alimentei enquanto dormia. ações aleatórias e irrefletidas, como a da criança despreocupada que vê a maré levando suas sandálias e não reage, sabendo-se incapaz de enfrentar a traquinagem astuta do mar. vi, mas fiquei imóvel, esperando um não-sei-quê me socorrer. a ajuda não veio, obviamente.

ao menos aprendi algumas coisas incomunicáveis, relacionadas às vontades, intuições, sentimentos invisíveis e verdades indigestas. por um lado, há que se ter coragem de se assumir o que se sente. e mais ainda de renunciar a uma possibilidade de alegria [regada com todo o carinho poético a que sempre me declarei destinada] ainda púbere embora prometessem viger no tempo do sempre. por outro lado, a vida real que bate à porta, repleta de bagagens aos pés, me solicita uma decisão: coragem de ser já agora o que, mesmo inconfessadamente, temi, o reconhecer-se concreta, ativa, pensante, construtora, adulta.

é uma decisão difícil: a poesia trasvestiu-se de cotidiano fenomenal, com ela ganho sabores e risos, mas perco as cores do amor; a realidade enfeitou-se com um fascínio irracional e delicioso do amor, mas perco a leveza da sincronicidade, a doçura lírica do cuidar fraternal.

meus passos são tentativas ocas de reajeitar as coisas. a dor, porém, é inevitável.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

pipoca e suco de limão





Só!

Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura,
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!

Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh’alma triste, dolorida e escura,
Minh’alma sem amor é cinza e pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!

Que tragédia tão funda no meu peito!…
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!

Deus! Como é triste a hora quando morre…
O instante que foge, voa, e passa…
Fiozinho de água triste…a vida corre…

Florbela Espanca - Livro de Sóror Saudade

sábado, 21 de fevereiro de 2009

enquanto isso, na sala de justiça...













07.02.08 [e também hoje].



ainda não acordei, mas já ouço as vozes sussurradas lá de fora: ela está quieta! estará doente? será que morreu?

continuo dormindo e espero sonhar novamente.

enquanto vivo sozinha e reclusa, construo um castelo invisível com as palavras colhidas de livros e de filmes tão estranhos quando o meu desejo de ser só. passeio entre a frança clássica de proust, o indecifrável de saramago e alguns retalhos de filosofia espalhados pelos trabalhos por escrever e por corrigir. encontrei definitivamente baudelaire. me prometi de sicca.

fora essas distrações inúteis, espero: um emprego, o retorno às aulas, um amor tranquilo que me dê um filho.

também quero uma inspiração para compor outras histórias. usar essa minha cabeça sonolenta para desembaraçar os múltiplos enredos que minha angústia [de existir] produz. e me trancar eternamente, sem disfarces, sem querências. apenas solta comigo, livre de todos, plena. aqui ou na suíça.

O MEU CORAÇÃO - este romantismo que me consome a alma também alimentou idéias [no sentido platônico] de amores e relacionamentos tão inalcansáveis quanto irreais. a dicotomia entre o meu idealismo e a minha descrença radical me levam a conflitos intensos. sou fiel a uma estética herdada que prima pela simetria, pela ordem, pelo bom. mas na vagueza destes conceitos me perco.

além disso, quando recobro os sentidos e me lembro de quem sou, simplesmente não quero nada, não espero nada, não creio em mim. se me dou é por acaso. porém, quando quero, é por inteiro.

optei pelo amor, mesmo não crendo nele. aposto no escuro. o que virá? arrisquei e só.

anterioridades



"Irmãos na Dor, os olhos rasos de água,
Chorai comigo a minha imensa mágoa,
Lendo o meu livro só de mágoas cheio!"




nada de grandes aventuras, construções mirabolantes, feitos incríveis. foi mesmo só a vida comum, seus aborrecimentos diários, essa mesmice.
e ela que quando menina sonhava ser rainha ornada com afinco pelo amor de súditos imateriais, agora via-se enlameada, azeda, triste e só como é mister a toda plebéia convencional.
comia o que sobrava. sua vida se manteve por conta de pequenas usurpações de dejetos e rejeitos. vestia-se do que lhe davam. mendigava também o amor daquele a que ousou esperar.
e ele não chegou jamais.
arrastou-se por tumultuadas vizinhanças. nunca teve seu próprio espaço. quis o mundo dos castelos, das festas, da boa comida e da música inebriante.
na névoa de sonhos ao redor da sua cabeça dispersa, ajuntava casais, celebrava conquistas, herdava amores infinitos e fiéis... por vezes dançava sozinha, pensando-se tomada por uma multidão agradecida.
era tola e vil. riam-se dela os simples de coração; apedrejaram-na os que seguiam a lei.