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sábado, 5 de março de 2011

janeiro



descobri com o caio f. que tem jeitos muito diversos dos meus de se iludir: há quem se engane repetindo para si mesmo que tem um dragão com quem mora; há que se diga todos os dias: que será doce.

claro que eu faço isso também, mas quando chove granizo em pleno sertão, como ontem, apenas me permito dissolver as velhas expectativas numa ladainha seca, escondendo ao máximo a tempestade interna, apesar de violenta e irremediável, escondida como boa parte dos meus projetos vencidos.

voltar à casa onde se perdeu a infância é reconhecer como a invenção de esperanças de que aprenderia a voar e seria feliz podem se tornar duradouras. voltei. mal consigo ver, espalhadas em cacos aleatórios, o reluzir fugaz de recortes de lembranças misturadas, o que foi e o que nunca será agora são inseparáveis: era para ser contínuo e fresco, era para ser boa como a aventura dos meninos perdidos, mas eu apenas voltei ainda com a pele colada com dúvidas e nãos e outros tantos talvezes, essa velha coleção de mágoas além das recentes desarmonias...

os anos girando e eu ainda me debatendo no inóspito desse mar de areia seca granulada e fria como a dúvida em si mesmo, que nos assola em plena madrugada insone, esses desencontros que me congelam pouco a pouco. mar de gelo no sertão.

"na vida, devemos desconfiar: do sultão, do mar, da sorte e do amor; principalmente quando estes sorriem para nós"

e lá vou eu: a perdida, a incerta, a desgastada; cada dia mais ciente de que se os dragões não conhecem o paraíso, eu tampouco.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

conversas internas



eu andei perdida em movimentos aleatórios de felicidade. é simples qd não se é só. mas isso, para mim, dura pouco. acaba antes do fim das férias. e por + q eu me esforce, esvae-se, fumaça entre os dedos.
[o amor também será isso, então? uma despedida sempre pronta a cumprir-se? essa ameaça constante?]
o q, nesta vida, afinal nos une ao alheio do mundo e dos outros se não a nossa consciência de sozinhez e desepero? não é o sangue aqui nas veias. nem é a bondade, ou qqr outro valor. seria simplório d+. é o comodismo? a preguiça? acredito + nisso do q em qqr juízo moral.



mas isso é tão lá dentro q quase não ouço. não tenho do q reclamar. e não é crítica a ninguém. lá em casa, além das nossas caras quase idênticas, o cilma é de reciprocidade em atos de solidariedade pura e despretenciosa. riso e cor. uma felicidade q não tenho enquanto atravesso esse cotidiano na capitá do arraiá baianesco. lá em casa, tudo é tão engraçado e calmo...


[presentinho da amiga super-patie:]

/acadêmicos s.a by: patie braille/



depois que eu cheguei à caótica e destrambelhada capitá, quase não me vejo. acho q me esqueci em alguma gaveta velha, ou pote sem uso. quem sabe qd me reencontrarei?
era pra ser + forte e puro o meu senso de identidade e reconhecimento das minhas próprias querências. talvez eu tenha me tornado só isto. e sigo.

não vou negar: é bom. eu gosto. é ótimo! se tenho medo do porvir, é por causa do já ido. ninguém entende, pq é um daqueles tantos segredos q eu fiz questão de apagar até do caderno imaterial do vivido. aí deu nisso. insistência louca em capítulos repetidos de série tosca, sem qqr audiência. minha cabeça e seus dilemas: eu quero mesmo um de tamarindo, que parece de groselha e tem gosto de limão ou só uma água sem gás?

coragem, coragem...






a pálida luz da manhã de inverno,

o cais e a razão
não dão mais 'sperança,
nem menos 'sperança sequer,

no meu coração.
o que tem que ser

será, quer eu queira que seja ou que não.

no rumor do cais, no bulício do rio,

na rua a acordar
não há mais sossego,
nem menos sossego sequer,

para o meu 'sperar.

o que tem que não ser
algures será, se o pensei;
tudo mais é sonhar.


fernando pessoa
28.12.1928

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

quarta feira de cinzas




2009

A POSTERIDADE NOS JULGARÁ

Quando for descoberto o remédio preventivo contra a gripe, as gerações futuras nunca mais poderão nos entender. Gripe é uma das tristezas orgânicas mais irrecuperáveis, enquanto dura. Ter gripe é ficar sabendo de muitas coisas que, se não fossem sabidas, nunca precisariam ter sido sabidas. É a experiência da catástrofe inútil, de uma catástrofe sem tragédia. É um lamento covarde que só o outro gripado compreende. Como poderão os futuros homens entender que ter gripe era uma condição humana? Somos seres gripados, futuramente sujeitos a um julgamento severo ou irônico.

Clarice Lispector - Aprendendo a viver.



[ANTERIORIDADES]



O mar, o vasto mar nos consola os labores!
Que demônio dotou o mar, roufenho canto
Perene a acompanhar os ventos rugidores,
Da sublime função de sublime acalanto?
O mar, o vasto mar nos consola os labores!

Baudelaire





arrebentam-se nas pedras negras da minha dor os desejos contraditórios de que me alimentei enquanto dormia. ações aleatórias e irrefletidas, como a da criança despreocupada que vê a maré levando suas sandálias e não reage, sabendo-se incapaz de enfrentar a traquinagem astuta do mar. vi, mas fiquei imóvel, esperando um não-sei-quê me socorrer. a ajuda não veio, obviamente.

ao menos aprendi algumas coisas incomunicáveis, relacionadas às vontades, intuições, sentimentos invisíveis e verdades indigestas. por um lado, há que se ter coragem de se assumir o que se sente. e mais ainda de renunciar a uma possibilidade de alegria [regada com todo o carinho poético a que sempre me declarei destinada] ainda púbere embora prometessem viger no tempo do sempre. por outro lado, a vida real que bate à porta, repleta de bagagens aos pés, me solicita uma decisão: coragem de ser já agora o que, mesmo inconfessadamente, temi, o reconhecer-se concreta, ativa, pensante, construtora, adulta.

é uma decisão difícil: a poesia trasvestiu-se de cotidiano fenomenal, com ela ganho sabores e risos, mas perco as cores do amor; a realidade enfeitou-se com um fascínio irracional e delicioso do amor, mas perco a leveza da sincronicidade, a doçura lírica do cuidar fraternal.

meus passos são tentativas ocas de reajeitar as coisas. a dor, porém, é inevitável.